Abnegue!

Escrever é quando voo, escrever é quando começo incêndios. Escrever é quando tiro a morte do meu bolso esquerdo, atiro-a contra a parede e a pego de volta quando rebate." - Charles Bukowski

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Soneto para meu amor (para Mariane)

O que era tristeza virou felicidade

Eu passei a ver o mundo de outra forma, sem temor

E o que era, tempo atrás, só uma amizade

Hoje deixa minha vida com mais cor.

Eu acordo todo dia pensando nela

Pensando em fazer o dia dela mais feliz

E, quando cansado, olho pela janela

“Alegria, alegria” é o que o meu apanhador de sonhos diz.

E lembro-me da boca que diz que me ama

Com um sorriso que me deixa contente

Ouço uma voz que me chama, vem viver a vida intensamente!

Então, eu que tinha parado com a poesia

Porque era um tempo de dor, agora penso todo dia

Em escrever para minha pequena, para o meu amor.

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Eu tenho sorte. Não, amigo, eu não ganhei na mega sena e nem nasci em berço de ouro, isso nada tem a ver com dinheiro ou qualquer outra coisa que se rasgue facilmente. Isso é sobre algo que se encontra uma vez na vida, e só se encontra com o coração aberto e com a certeza de que vale a pena. Pode até parecer piegas aos olhos dos outros, podem crucificar o meu exagero e jogar pedras no meu sorriso descontrolado, mas só Deus sabe o quanto eu tenho sorte. Eu tenho sorte porque existe outra pessoa que olha para mim e diz ter sorte. Eu sou a sorte de alguém e isso é ter sorte. Sorte, felicidade, ventura, fortuna, sucesso. Eu tenho.

Eu tenho sorte porque há um sol na minha vida, uma estrela que me guia, um abraço que aconchega meus dilemas, um beijo que me leva acima do céu, dois olhos que me olham e me fazem acreditar que a vida é bonita apesar de todo o resto, uma voz que me chama de amor sem receio, uma mão que se une com a minha em uma conexão assustadora para quem não está acostumado. Ainda estou me acostumando a ter sorte, mas posso te dizer, amigo, ter sorte foi a melhor coisa me aconteceu. A minha sorte é o meu amor. O meu amor é a minha sorte.

E depois de quinze dias de saudades, reencontrar a sua sorte e matar a tal da saudade (que tanto machucou!) no abraço, no olhar, na voz que diz “te adoro”, no suor, na saliva, nas mãos conectadas, no conforto do colo, no cafuné e nas batidas de um coração apaixonado e sem medo de ser o que é, e ter sorte de novo sem nunca ter deixado de ter sorte porque ela estava sempre ali, se mostrando presente e alegrando seu dia tedioso. Amigo, eu tenho sorte e minha sorte tem nome, telefone, endereço e um rosto lindo.

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Ela é melhor que filme do Godard. Ela é melhor que livro do Bukowski. Melhor que gol aos 48 do segundo tempo, raio de sol no inverno, lasanha no almoço de domingo ou pizza a qualquer hora. Melhor que cachoeira, brisa leve, ar condicionado ou sorvete em dia quente. Melhor que pastel de feira, melhor que dormir cansado, melhor que votar bem cedinho e não ter o resto do dia para não fazer nada. Ela é melhor que dinheiro quando não se esperava ou quando é mais do que se esperava, melhor que dinheiro em qualquer situação. Ela é melhor que amigos, parentes, vizinhos ou quem quer que seja.  Melhor que time de basquete norte-americano ou a seleção de 82. Melhor que cama, colchão, almofada ou travesseiro. Melhor que site de downloads e internet banda larga. Melhor que quadro do Van Gogh ou obra de arte renascentista. Melhor que música, cinema, teatro, literatura, culinária, televisão, esporte. Melhor que paz de espírito e consciência limpa.

Beijá-la é como estar acima do céu. É melhor que matar aula, jogar bola ou assistir filme. É uma sensação rara, daquelas que sentimos quando damos brinquedo para criança pobre ou comida para morador de rua. É como descobrir, de repente, que viver é de graça. É melhor que brincar com argila ou fazer gol de bicicleta. Melhor que ler na cama e pegar no sono. Melhor que trabalhar apenas meio período. Beijá-la é um sonho sem fim, uma vontade de viver pra sempre, uma satisfação de alegria contagiante, é uma sinfonia de Beethoven ou uma peça de Shakespeare. É melhor que ouvir “Under Pressure”. É melhor que poema do Fernando Pessoa. Beijá-la é ter a sensação de ter o mundo entre os lábios. É acreditar na palavra “felicidade”. É acreditar em um mundo melhor. É querer, cada vez mais, fazer o mundo dela melhor.

Estar com ela é esquecer-se do resto. É lembrar que a vida, assim como ela, é bonita. Aliás, ela é linda, sabia?

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Houve um tempo de confusão e de busca inutilmente desenfreada para entender certos sentimentos (ou a falta deles) e certas atitudes (ou a falta delas). Esse tempo passou. Passou como uma tempestade que dura uma noite. Uma noite em um país em guerra, ouvindo os canhões e os gritos dos soldados desalentados e o choro das mães inocentes e o desespero das pessoas mutiladas. Uma noite escura, fria e longa como devem ser as noites em que estamos exasperados, correndo de um lado para o outro, procurando saída. Houve um tempo em que tudo era tristeza. Houve um tempo em que palavras eram proibidas e sorrisos eram raros. Houve um tempo de lágrimas e sussurros vindos de algum quintal. Houve um tempo em que eu não sabia. Naquele tempo eu não lhe conhecia. Houve um tempo, não há mais.

À noite, deitado na cama, olhando para o teto, eu só penso em você. Quando levanto de manhã, eu só penso em você. Peço desculpas por ser exagerado. Fico nervoso comigo mesmo quando me vejo tendo ciúmes. Peço desculpas. Se eu morresse hoje, você choraria? Se eu te beijasse, você fugiria? Nossos amigos em comum, quando me veem, perguntam de você porque está escrito na minha cara que eu só penso em você. Está escrito na minha testa que eu quero você do meu lado.

Eu quero. Eu quero acordar e te desejar bom dia sem medo de parecer vil. Eu quero ver o brilho dos teus olhos e te chamar de linda. Eu quero gritar para todo o mundo que você é incrível e que eu gosto tanto de você que chego a lacrimejar. Eu quero respirar tranquilo e saber que você está bem. Eu quero levitar com seu abraço até chegar à Lua e quero continuar te abraçando lá na Lua. Eu quero que você se sinta única. Eu quero seu melhor sorriso. Eu quero sorrir com você. Eu quero te dizer que meu coração é seu. Eu quero te dar todo o carinho do mundo, mesmo que eu não tenha todo esse carinho para dar. Eu quero dizer a todos que você é minha garota. Eu quero ser o que você quiser que eu seja. Eu quero estar com você e tocar seu rosto bonito e deixar sua mão sob a minha e sentir sua pele suave e entrelaçar nossos dedos até o pôr do sol e te chamar de linda.

Você é linda. Você é linda de todas as formas possíveis. Sim, de todas as maneiras que uma garota pode ser linda, você é. Não importa se você acorda descabelada, não importa se no final do dia você está cansada. Você é linda. Você é linda porque não importa o que aconteça daqui para frente, você sempre será a pessoa que eu conheci em tempos difíceis para mim e que trouxe uma felicidade que eu jurava não existir. É com você que me sinto feliz. É você que eu quero fazer feliz, e eu sei que consigo. Você é linda, sabia? 

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Por todo esse tempo (parece que foram anos!) rejeitei abraços sinceros porque apenas o seu me faz levitar e evitei conversas porque só com você me sinto à vontade e não retribui sorrisos porque o seu sorriso é o único que me satisfaz e fiz tudo isso calado porque nunca me julguei digno de sua atenção e muito menos do seu afeto. Eu, que não tenho tido paciência nem para minhas próprias manias, que tenho que me concentrar o dia todo para não perder o controle, que tenho dito frases sem sentido para pessoas sem caráter, que tenho sido alvo de chacotas e ofensas por parte dos meus amigos imaginários, logo eu! Como poderia alguém como eu chamar a atenção de alguém como você? Como poderia alguém como eu falar sem cerimônias sobre sentimentos até então intocáveis? Como poderia alguém como eu abrir cadeados fechados a mais de 20 anos? Como poderia alguém como eu aparecer na frente de alguém como você e dizer sem meias verdades tudo aquilo que está dentro do peito já castigado pelos dias chorados? Eu não consigo e digo a todos que não consigo, eu não digo nem metade do quero dizer e já penso que disse muito e sofro por não ter dito o resto e ensaio os dizeres durante a noite e pego no sono e acordo dizendo seu nome e grito até não ter mais voz, grito em silêncio para não acordar ninguém. Eu sou o rei da incoerência, eu sou o mestre da contradição. Eu não sei mais o que fazer, nunca soube, nunca saberemos.

Penso em tudo que fiz, penso em quantos muros quebrei, penso em quantas vezes perdi o fôlego e voltei a respirar, em quantas vezes tomei coragem e não fiz, em quantas vezes fiz sem ter coragem, penso em toda a timidez que venci apenas para te chamar para tomar um sorvete comigo ou para dizer o quanto eu estava feliz por estar do seu lado. Penso o tempo todo, e esse pensar atravessa minha garganta como um punhal, porque não só penso, eu também sinto. E sentir era algo que há muito eu não fazia, estava acostumado com o racionalismo e a lógica da minha vida ilógica. Sim, eu já havia me adaptado às perguntas sem respostas, ao esquecimento das pessoas, à rejeição das vozes doces e suaves que diziam não. Não! Não! Mas você disse sim, vou, te encontro lá. Eu que ensaiei os dizeres durante várias noites, não disse. Eu sou um idiota, não deveria estar onde estou. Você tenta descobrir algum sentimento escondido por trás da minha barba, eu mudo de assunto porque tenho medo que você descubra que alguém como eu gosta tanto de alguém como você. Eu sei que você me rejeitaria, eu sempre soube, mas vou até o fim, porque acredito que você vale a pena.

Não tenho nada a oferecer, por isso sempre parei no meio do caminho, sempre afastei as pessoas de mim antes que elas descobrissem o quanto sou chato e ranzinza e exagerado. Você descobriu tudo isso e eu não parei. Não parei porque não consegui, não parei porque você me puxava a cada mensagem respondida, e toda vez que eu olhava seus olhos tinha vontade de te abraçar até o mundo acabar e cada vez que sua boca falava meu nome eu tinha vontade de voltar no tempo e ter aquele instante novamente para mim. Sorvete de gianduia é muito bom. Pena eu não ser bom o suficiente, mas eu posso fazer com que seus dias sejam mais parecidos com sorvete de gianduia. Minha vida tem se transformado em sorvete de gianduia desde que você apareceu. E eu ainda nem sei de onde vem a palavra “gianduia”.

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Parece loucura, mas meus pensamentos não estão em desalinho, os sentimentos que antes eram anônimos começam a vir à tona, mostrando-se não tão promissores e não tão desesperadores. Logo agora que eu tinha me acostumado ao desespero, logo agora que a angústia era parte de mim, logo agora que o ódio já tinha oxidado todo o meu âmago, logo agora que a morte se fazia presente, abraçando e beijando minha alma abatida. Vou fazer de conta que não sei, vou pensar em uma maneira de fugir. Vou me fingir de morto, abanar o rabo, ir buscar graveto, comer ração, dormir na casinha com o rabo entre as pernas. Eu não quero que essas pessoas saibam o que penso e o que sinto, eu tenho vergonha do que penso e do que sinto. Eu quero matar todos eles, mas não sou um psicopata, eu quero amar todos eles, mas não sou tão humano. Ou talvez eu seja humano demais.

Quando acordo nas minhas madrugadas recheadas de sonhos e suor e temor e aflição, meu primeiro pensamento é você, meu segundo pensamento é você, meu terceiro pensamento é você. Ando pela casa, vejo a hora, é tarde da noite, volto a dormir, sonho com você. Tudo isso é parte de um ser perdido em concepções, de uma pessoa ruim e egoísta, de alguém que não sabe o que é afeto, mas cultua a querência com devoção e imagina o amor como a solução. Um sonhador cheio de defeitos e problemas, que sofre um penar imaginário e real ao mesmo tempo, que pensa em não sentir e que sente que não pode mais pensar. Sem talento, sem sucesso, sem carinho para dar, sem dinheiro para receber, sem a vida, mas respirando.

Você aponta meus defeitos com uma simplicidade cômica, te ajudo com as constatações, abro as cartas da minha consciência para você, como nunca fiz com mais ninguém. Quando percebo, você já sabe muito sobre mim, tenho medo que mais alguém descubra o que você sabe e que venha até mim com pedras na mão e sangue nos olhos. Com você sinto-me exposto e disposto a mudar de posto. Você fala sem cerimônias que sou ranzinza e chato e teimoso e desastrado e exagerado e exagerado e exagerado. Se você soubesse o tamanho desse exagero talvez entendesse que quando digo “se cuida” é porque não tenho coragem de dizer “fica comigo” e talvez viesse correndo quando digo que quero te ver, porque na verdade eu quero cuidar de você.

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Ele acorda em um domingo de manhã, um desses domingos que parecem não ter fim, recheado de tédio e mágoa.  O estômago vazio pedia comida, a cabeça cheia pedia sossego, o corpo cansado não pedia nada, talvez um pouco de proteção se fosse possível, sentia-se especialmente frágil naquele dia, estava febril sem estar doente, estava vivo sem estar feliz, era um problema sério, caso sem solução, ele dizia. As pessoas não acreditavam, essa infeliz mania de ter esperanças, de ver a luz no fim do túnel era patética, para não dizer triste. Ele não tinha esperanças, não havia nada a se fazer. Ele ainda respirava, por obrigação. Ele ia aos lugares e bebia e brigava e cantava e declamava poesia e voltava para casa e chorava e queria morrer. Ele era covarde e egoísta, fingia o tempo todo. Sorrisos mentirosos, piadas sem graça, atenção ilusória, ele quer morrer.

Depois de virar na cama a noite inteira, ele levanta, procura algo para comer, não acha nada. Volta para a cama, vira de um lado para o outro, levanta, procura algo para comer, não acha nada. Volta para a cama e chora, dá socos nas paredes, corta o próprio rosto, ele quer morrer, mas não quer morrer de estômago vazio, ele já se sente vazio demais. Ele sai pra comprar pão e cerveja, os vizinhos olham assustados para alguém desconhecido. Um desconhecido quem mora por ali há 20 anos. Ele volta com o pão e as cervejas, as vizinhas cochicham na esquina, ele segue seu caminho, vadias. Ele tem passado a pão e cerveja há alguns dias, sempre sobra pão. O pão de cada dia é o mesmo pão que o diabo amassou. Chega uma hora que cansa, ele dizia.

A cada dia uma fuga, ele não ouve mais músicas, há tempos não assiste um filme, os livros estão empoeirados na estante, escrever já não escreve, as roupas que usava não usa mais, não faz a barba, não toma banho, ele desistiu. Essa estória continuará enquanto ele respirar, enquanto Deus quiser que ele respire. Suicídio não é a solução, não para essa estória. Só daria mais papo para as vizinhas fofoqueiras, é tudo que aquelas putas querem, ele não vai dar esse prazer a elas. Ele ainda vive.

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Começo sem saber pra onde ir. É sempre assim, o caminho a seguir aparece sem causar alarde, fica à espreita, fingindo de morto feito cachorro obediente. Devido à habitual falta de bom senso, falo o que não é pra falar, penso o que não se deve pensar, sentir eu já não sinto. Acredito que já disse isso antes, mas vou dizer de novo, desaprendi a sentir há muito tempo, em uma época que não recordo direito, época em que braços foram arrancados e corações despedaçados. Corações são despedaçados em todas as épocas, desde sempre. Corações foram feitos para isso, todas as outras funções são secundárias. Quando nada acontece como você queria que acontecesse, e você não faz nada a respeito, você fica parado, mudo, anestesiado, você nem sequer fica bravo, a famosa crise não vem, você espera e ela não vem e você nem se lembra mais como chorar e as pessoas desesperam-se ao seu lado e você não reage, significa que você já não está mais vivo. Significa que eles venceram.

Tudo na vida é estranho, os fatos, as pessoas, os lugares, os barulhos, os sentidos e os sentimentos, os sorrisos e os desesperos, as palavras e as perguntas e as respostas sem palavras. Tudo é estranho, nada se ajusta, nada é justo, juro. Estranho é ficar apaixonado pela sua sobrancelha direita, é admirar cada dente na sua boca e imaginar quando e como eles substituíram os antigos, de leite. Será que você guardava seus dentes de leite debaixo do travesseiro, ou em cima do telhado, ou você simplesmente jogava fora? Ai de mim, minhas ideias são estúpidas e eu sou um idiota fugindo de tudo como uma criança foge do homem do saco.  Eu sempre quis ser o homem do saco, eu sempre quis ser alguém que nunca fui, fazer algo que nunca fiz, ser feliz sabendo que felicidade não existe. Quero-lhe não só do meu lado, mas com seus dedos frágeis entrelaçados com os meus, trêmulos.

Já não sei mais o que estou falando, tenho estado febril, doente, louco, alucinado e desrespeitoso. Ando de um lado para o outro no meu quarto atrás de ideias e ideais. Penso na vida, na morte, no tempo e no espaço, penso em não pensar, esqueço o que estou pensando, perco as ideias e os ideais com o rosto molhado de suor e lágrimas, sinto-me vivo graças ao gosto de penúria na minha boca. Escrever é a única coisa que sei fazer direito, amar já não sei, viver já não sei, escrevo.

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Eles formavam um casal feliz há 20 anos, casaram e tiveram filhos. Depois de tanto tempo, os problemas de relacionamento começaram, não suportaram a crise, as crianças tinham acabado de entrar na escola. Decidiram entre eles que o melhor era o divórcio. Perguntaram às pobres criaturas com que elas queriam ficar. Papai ou mamãe? Mamãe ou papai? Os olhos adultos encaravam os olhos infantis com um misto de selvageria e enternecimento. Nada é mais cruel do que isso, eles não fazem ideia do quanto essa simples pergunta é torturante, como eles podem fazer isso com seus filhos? Papai ou mamãe? Mamãe ou papai? Isso é pergunta que se faça ao sangue do seu sangue, carne da sua carne? As crianças choraram como crianças e os adultos choraram como adultos. Finalmente, eles entenderam-se, desistiram do divórcio, continuaram vivendo. Os rebentos foram infelizes para sempre.

Incrível é pensar que nunca te vi e já estou caído. Por que é tão veemente essa sensação, esse achado que as pessoas mais desatentas conseguem ver em meus olhos?  É difícil esconder esse lampejo evidente quando se encontra alguém que se distingue na multidão sem graça e sem praça. Ai de mim, que começo até a fazer rimas! Ai de mim, que não sei mais o que faço, eu perco o juízo que nunca tive e entro em desespero (meu dedicado amigo desespero, presente em todas as horas!). Eu que queria ser Elvis, que quero ser Hemingway, que vivo procurando e não acho, e que quando acho, finjo que nunca procurei. Sempre estive a procura da verdade e nunca observei de perto a verdade dessa procura, te encontrei e nem sei como, estou assustado porque perdi a memória e caí diante do mundo. Todos me olham com increpação e fúria, chamam-me de covarde enquanto durmo. Eu que jurei nunca me importar com ninguém nesse mundo, lhe pergunto se sua gripe melhorou, se seu dia foi bom e se está tudo bem com você.

Fico agitado, começo a suar, ando pela casa sem direção, esbarro nas pessoas na rua, evito olhar para meus amigos, acelero minha moto sem olhar para os lados, sem me dar conta do mundo em volta. Não quero saber nem sentir, mas você respondeu a mensagem que te deixei ontem à noite, então eu sorrio um sorriso principiante, vejo meus olhos no espelho e começo a acreditar nos filmes que vi.

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"Era uma vez" é a forma mais clichê de se começar uma estória, por que as pessoas insistem nisso? Elas acham mesmo que eu vou acreditar que aquela felicidade toda aconteceu alguma uma vez nesse mundo? Comigo não tem “era uma vez”, todas as minhas narrativas que terminam com um final feliz (e elas são poucas) começam com “que bom seria se”. Todas elas são fruto da minha imaginação fértil e não tenho culpa se viajo para outros planetas todo fim de semana, se vou pro Japão a bordo de um filme de Kurosawa ou se simplesmente acredito que você me ama. São todas mentiras que às vezes me fazem bem. Às vezes, a realidade entra sem bater e eu percebo que meu travesseiro está molhado de lágrimas; eu tinha acabado de voltar de Júpiter.

Há três coisas que você precisa saber: nada é importante, todo mundo é infeliz e não existem adultos. Um duplo sem gelo aos 44 minutos do segundo tempo e o juiz não vai dar acréscimos. Não há mais tempo, não há mais voz, não há mais luz. Todos estão cegos, mudos e apressados. Mantenho a calma na frente deles. Viajo para Marte. Nada é importante, todo mundo é infeliz e não existem adultos. Já estou me aproximando de Saturno, HAL 9000 faz-me companhia. Acordo indeciso, eu estou do teu lado, mas você está longe, finjo dormir, volto para Marte, prendo a respiração, quero morrer de novo. Enxugo o suor do meu rosto, olho para seus olhos inquietos, sua boca aflita não diz palavra alguma, sua pele cinza (tenho visto tudo cinza ultimamente) parece não combinar com meu tênis vermelho. Imagino sua voz serena e ela não se encaixa em minha mente ocupada com devaneios.

Existe uma alma perdida como a minha, uma mente confusa que quer fugir, um coração sedento por impulso, uma vida que não faz sentido, um sonho que termina sempre na melhor parte, uma madrugada de suor e lágrimas, a espera por um canto do cisne, um livro que Dostoiévski escreveria, uma música de Bob Dylan. Se ainda soubesse sentir, eu sentiria.