Todos dizem: “Você tem que ser forte, você tem que ser forte, você tem que ser forte…”, mas chega uma hora que o corpo não aguenta, a mente desiste e você desaba. Desaba com culpa, porque ninguém autorizou-lhe, você não tinha permissão para desabar, você tinha que ser forte! Quem foi o babaca que inventou essa besteira, garoto? Quem foi que disse que você tem que ser forte e não esticou o braço para unir forças? Esqueça tudo isso, fuja dessas pessoas, compre uma cerveja e desabe. Sim, desabe! Hoje você tem a minha permissão para desabar. Caia, chore, grite, xingue, quebre. Hoje você pode. Outros já teriam feito há muito tempo se estivessem no seu lugar. Desabe agora, hoje ninguém vai te julgar. E se julgarem também, que diferença faz? Amanhã é outro dia. Por hoje, faça o quer fazer sem importar-se com os olhares alheios, com os cochichos da mesa da frente. Desabe!
Meus olhos verdes frequentemente estão vermelhos e mesmo aquelas poucas pessoas que olham diretamente para eles não conseguem perceber o tamanho do desespero. Os olhares dos meus amigos não conseguem captar as batidas rápidas e tristes do meu coração e a velocidade da minha motocicleta camufla a sofreguidão da minha alma. Quando passo pelas belas garotas que voltam das escolas em uma conversa afetuosa com as amigas, lembro-me da época em que tinha 17 e voltava sozinho da escola, já perdido em pensamentos, já pensando em suicídio, essa ideia que me acompanha desde sempre.
Ela tem não sei quantos anos, mora não sei onde, gosta não sei do quê. Perguntei, não respondeu, fugiu do assunto, disfarçou, fez pirraça. Procurei informações em bibliotecas, na internet, nos jornais e fiz pesquisas com as pessoas nas ruas da cidade (uma dessas cidades pequenas em que todo mundo sabe da vida de todo mundo), não encontrei nenhuma informação, ninguém sabe de nada. Eu não sei de nada, ela não sabe de nada e isso é bom. Os ignorantes é que são felizes. Eles não sabem que a felicidade não existe e por isso, são felizes. Eu sei, mas, por causa dela, esqueço de vez em quando, para lembrar segundos depois. Penso por horas e horas, o que ela sabe sobre mim? Ela sabe meu nome, tudo bem, eu também sei o dela, mas o que mais? Será que ela sabe de mim, tudo que eu não sei dela? Por acaso, ela sabe que tenho 21 anos? Que moro em um bairro que está em evidência graças à onda migratória das grandes organizações para as periferias das cidades nos últimos 10 anos? Que sou apaixonado por cinema e amo os filmes do Godard? Descobri que o que me fascina não é o mistério, é a misteriosa. Então, quando vejo que escrevi demais, eu paro de escrever.
